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Silencio minha mente, abro o meu coração para melhor te escutar. Maria Aparecida Giacomini D'Oro
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Arlete Caramês: uma vida em prol das crianças desaparecidas.

 

Arlete Caramês, Deputada Estadual do Paraná (2003/2006), Fundadora e Presidente de Honra do CriDesPar (Movimento Nacional em Defesa da Criança Desaparecida do Paraná) e extraordinária ativista brasileira, nasceu no dia 15 de setembro de 1943, em Porto União – SC, e faleceu hoje, dia 24/03/2026, em Curitiba – PR.

 

Estigmatizada na alma pelo desaparecimento do pequeno Guilherme, seu único filho, tornou-se uma das maiores referências nacionais na luta em prol das crianças desaparecidas.

 

Formada em Contabilidade pelo Colégio Visconde de Cairú, localizado na capital paranaense, foi funcionária de carreira do extinto BADEP nas décadas de 70 e 80. Nos anos 90, ocupou vários cargos no Banestado, hoje Banco Itaú.

 

Na manhã de 17 de junho de 1991, Arlete Caramês e seu esposo, Ewaldo Oscar Tiburtius, deixam o anonimato e passam a viver o mais longo pesadelo de suas vidas — envolto no mistério que já dura três décadas e meia. Juntos iniciam um árduo caminho marcado por sofrimento, angústias e dúvidas diante do desaparecimento do maior tesouro que possuíam: o filho Guilherme Caramês Tiburtius, de apenas oito anos e meio, retirado do convívio familiar por mãos anônimas, ocultas na impunidade.

 

Enquanto aguardava o almoço e a hora de ir para a escola, Guilherme brincava de bicicleta em frente à sua casa, no bairro Jardim Social, em Curitiba, sob a vigilância periódica da avó materna, que naquele dia celebrava mais um ano de vida. Quando foi chamá-lo para almoçar, não o encontrou mais. Nem ele, nem sua bicicleta, nem qualquer vestígio que indicasse seu paradeiro.

 

Familiares e vizinhos se mobilizam. Começa a busca. A imprensa e a polícia são acionadas. À medida que as horas passam, o desespero cresce. Dias se tornam meses. Centenas de informações, cartas, telefonemas e pistas alimentam a chama da esperança nos corações dilacerados. Surgem também trotes e tentativas de extorsão, revelando a dureza humana diante da dor alheia. Os anos passam — e a dor permanece.

 

Dor indecifrável, traduzida por Arlete em um emocionante desabafo:

“Ter um filho desaparecido é ter a vida suspensa!

É pior do que a morte. Porque, na morte, por mais dolorosa que seja, o tempo se encarrega de aplacar a dor — ela é inexorável. E diante do inexorável, o ser humano aprende, aos poucos, a seguir.

Mas isso não acontece quando, misteriosamente, o seu filho é levado.

Quando lá fora há fome, frio, desabrigo, violência…

Para os pais, o simples ato de viver se torna doloroso.

Como comer, se o filho pode estar passando fome?

Como se agasalhar, se o filho pode estar passando frio?

Como sorrir… se o filho pode estar chorando?”

 

Mesmo assim, onde muitos veriam apenas deserto, Arlete fez nascer um oásis. Seu coração materno, dilacerado pela dor, recusou o ódio e escolheu o amor à humanidade — amor que a impulsionou, ainda em 1991, a iniciar um dos maiores movimentos sociais do país: o CriDesPar.

 

Guiada pelo lema — “A única causa que se perde é aquela que se abandona” — percorreu o Brasil distribuindo panfletos, divulgando rostos, fazendo apelos por informações sobre Guilherme e tantas outras crianças desaparecidas.

 

Através do trabalho comprometido da equipe do CriDesPar, criou-se uma consciência nacional sobre o desaparecimento de crianças, um grave problema que atinge milhares de famílias brasileiras. O tema ganhou destaque na novela Explode Coração, exibida pela Rede Globo em 1995, contribuindo para a solução de cerca de mil casos em todo o país.

 

Ao longo de sua trajetória, o CriDesPar promoveu campanhas de conscientização, firmou dezenas de parcerias e atuou em conjunto com órgãos como o SICRIDE, a Delegacia de Vigilância e Capturas e o NUCRIA, sendo corresponsável pelo desfecho de inúmeros casos de crianças e adolescentes desaparecidos ou vítimas de violência.

 

O desejo de proteger outras famílias e lutar por leis em defesa das crianças levou Arlete à vida política. Em 2000, foi eleita vereadora de Curitiba. Em 2002, tornou-se Deputada Estadual pelo PPS, destacando-se por sua atuação firme em causas sociais.

 

Entre suas conquistas, destacam-se leis voltadas à proteção da infância, à segurança, à saúde e à dignidade humana — expressões concretas de um amor que se transformou em ação.

 

Arlete — mãe do Guilherme — tornou-se símbolo de fé, coragem e persistência diante das adversidades. Graças ao seu trabalho, inúmeras crianças e adolescentes retornaram ao convívio de suas famílias.

 

Arlete não foi vencida pela dor.

Fez dela caminho, voz e ponte.

 

E, enquanto houver uma criança sendo procurada, seu amor seguirá caminhando pelo mundo.

 

Maria Aparecida Giacomini D'Oro

 

Tive a honra de entrevistar Arlete Caramês em maio de 2006 e de publicar essa entrevista no dia 11/06/2006, em minha página do Recanto das Letras, com sua aprovação.

 

Memorial Recantista

em prol da Inclusão

 

Se algo é real e profundo,

isso vai se perpetuar.

 

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Maria Aparecida Giacomini D Oro
Enviado por Maria Aparecida Giacomini D Oro em 24/03/2026
Alterado em 21/04/2026
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